terça-feira, 5 de abril de 2011

Há Salvação?


Há salvação ?

RESENHA
GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra e Cultura de Sustentabilidade. in: Revista Lusófona de Educação, n°16, 2005, p. 15-29.
Por Laíra Carolina Arvelos

Moacir Gadotti é professor titular da Universidade de São Paulo (USP), Diretor-geral do Instituto Paulo Freire, São Paulo. Licenciado em Pedagogia e Filosofia, mestre em Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra (Suíça) e livre docente pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Possui várias publicações voltadas para a área de educação entre elas: Educação e poder. (Cortez, 1988), Paulo Freire: Uma bibliografia (Cortez, 1996), Pedagogia da Terra (Petrópolis, 2000) e Educar para um Outro Mundo Possível (Publisher Brasil, 2007).
O artigo "Pedagogia da Terra e Cultura de Sustentabilidade" está organizado em 5 partes e um prefácio, escritos em uma linguagem formal e com uma profunda análise histórica, filosófica, sociológica e cultural das modificações do mundo e da humanidade, argumenta com veemência a necessidade de transformações nas relações com a natureza, bem como mostra os problemas acarretados pela rotina do uso exacerbado dos recursos e apresenta os fatos encontrando uma contribuição no que diz respeito à conscientização mais humana da sociedade quanto à sustentabilidade.
No prefácio do texto, Gadotti procura apresentar uma visão global de todos os assuntos que seram abordados posteriormente, criando para o leitor um início de reflexão, que acontece passo a passo. Essa reflexão inicial basicamente se constitui de um alerta, no qual mostra que é preciso uma quebra de estruturas e uma evolução do pensamento, da educação, globalização, sustentabilidade e cidadania.
Neste primeiro contato o autor é conciso: devemos mudar nossa posição diante do mundo. A nossa Era tão tecnológica e globalizada, traz junto a si uma nódoa que é a destruição e o consumismo. O nosso posicionamento deve acontecer antes que se chegue ao ponto de não ter nada o que fazer.

Na primeira parte do artigo o autor lança um debate a respeito da Pedagogia da Terra, ou seja, os meios mais eficientes para o sucesso da luta ecológica. Discorre sobre o conceito de desenvolvimento sustentável e humano, mostrando que estes conceitos muito das vezes são reducionistas, triviais, e vagos.

Elucida que a aplicação deles deve alcançar o equilíbrio: os nossos gastos não podem comprometer as gerações futuras. De um modo geral, a conceituação de desenvolvimento sustentável é alcançada, mas ao mesmo tempo é repetitiva, o autor usa deste recurso linguístico para reforçar a verdade dos fatos.
Em dois momentos são levantadas questões importantes. A primeira quando diz que as questões sociais não podem ser tratadas separadamente das questões ambientais. A segunda quando mostra a contradição entre os princípios de sustentabilidade e capitalismo. Nestas questões o autor obteve êxito.

Quando levanta a necessidade da conciliação entre as questões sociais e ambientais, ressalta o fator mais importante: o ser humano; é este que tem nas mãos o poder de modificar a natureza e a sociedade.

Quando fala em incompatibilidade entre sustentabilidade e capitalismo, reflete sobre os males deste sistema que só se preocupa com os ganhos imediatos.
Indica a possibilidade de se encontrar uma luz no fim do túnel, mostrando que aos poucos a sociedade sustentável cresce, a sua marcha está guiada não aos fracassos da Agenda 21, mas as experiências concretas demonstradas apartir da segunda Conferência de Assentamento Humano Habitat, organizada pela ONU em Istambul, em 1997.
Com Convicção afirma a existência da chance de se vencer na luta contra "nossos desafios globais." Essa visão positiva do autor, nos remete a esperança, e este sentimento unificado aos propósitos certos leva cada indivíduo a acreditar na existência de uma sociedade sustentável.

Na segunda parte do texto, o autor enfatiza a importância da educação e da percepção do mundo, para isso recorre a uma alusão as sensações pela quais as pessoas passam desde a infância.Essa comparação feita é objetiva, mas sucinta, pois não há nada mais poderoso que faz o ser humano refletir do que ver sua realidade escrita ali diante de seus olhos.

Respalda os papéis da educação sustentável e ecológica, da necessidade de se criar a Pedagogia da Terra, ou Ecopedagogia, de não apenas se pensar nos fatos e sim na observação, buscando novos caminhos.

Coloca em evidência um ato inerente ao homem, mas que deve ser instigado e incesante: o de buscar respostas.

Se não existir uma sociedade sustentável a Terra deixa de ser nosso lar e passa a ser só mais um espaço; o valor da educação reside no fato de que nos ensina a fazer escolhas e se certas estas escolhas desvendam um futuro promissor.
Afirma a importância do amor que se deve ter em relação à Terra e que este relacionamento deve ser movido pela ação, pela interação entre os indivíduos e a natureza.

Ecopedagogia é um termo que "nasce" durante o Fórum Global de 92 e vem sofrendo modificações a medida que se depara com a amplitude dos problemas ambientais.
Ao falar sobre a educação o autor vê nela um ato de amor, a educação sustentável, porém, vai mais além, busca uma relação saudável com o meio ambiente e a reflexão sobre o que devemos fazer para preservar nossa existência.

Em um terceiro momento o autor disserta sobre os fenômenos do processo de globalização, e a partir deste, resgata os conceitos de cidadania, consciência e civilização planetária. O debate destes pontos é construído em torno da Carta da Terra, movimento este que é utilizado como base para todo artigo, pois ressalta a importância da criação de uma pedagogia contextualizada com o mundo moderno, já que nele está a origem de todos os problemas.

A cidadania planetária é fundamentada num fato simples que é o de afirmar: "Se sou cidadão do mundo, não podem existir para mim fronteiras" (p.23). O autor reforça a ideia da pedagogia de sustentabilidade afirmando que ela proporciona uma revisão de conceitos para uma possível inserção do indivíduo na sociedade global.

De acordo com Gadotti existe uma grande diferença entre ser "um cidadão da Terra" e ser "um capitalista da Terra." Esse fato é claro em nossa sociedade, muitas das empresas sustentam seu caráter global e capitalista, afirmando possuir políticas ambientais como rótulos. A política atual é imatura no que diz respeito a consequência de suas ações, mas letrado no sentido de destruir tudo que vai contra seus interesses. A cidadania planetária é um projeto humano que deve se tornar projeto da humanidade.

Na quarta parte, o autor aponta uma característica tão fiel a nossa sociedade quanto esmagadora: há o avanço tecnológico, mas também a imaturidade política.

As nossas explicações do mundo estão se tornando incontextuais, para ele a ecopedagogia não só é intensamente democrática como planetária, servindo de pressuposto para uma reformulação da teoria educacional.
Abordando o movimento ecopedagógico retoma mais uma ideia ao Primeiro Encontro Internacional da Carta da Terra, ressaltando que este movimento descarta as ideias antropocêntricas, vê a Terra como organismo vivo, proporciona uma reflexão crítica e a cultura da sustentabilidade, além de mostrar que esse movimento e liderado pelo Instituto Paulo Freire, educador que tanto acredita na educação e no amor.

Reforça que o movimento político e pedagógico atual é desumano e injusto e que a Carta da Terra deve se tornar um código de ética planetário. É de suma importância que a Carta da Terra como movimento impulsionador e gerador de mudança não deixe que o atual sistema o confunda ou o oculte, se tornando só mais um movimento ambientalista.

Na quinta parte a Terra é vista como um paradigma. Paradigma é o mesmo que modelo e padrão. Neste momento Moacir com uma percepção genuína da alma humana mostra nossa incapacidade de enxergar "além do que vemos.".

Coloca a "hipótese Gaia," concebendo a Terra como um complexo organismo vivo. Muitos não consideram a Terra como viva, acredito que é pelo fato de não aceitar as consequências de suas ações sobre ela.

Aborda a importância da razão, enquanto precursora de várias descobertas e condena o racionalismo, que com sua lógica nos trouxe a Era do exterminismo em nome do progresso.

Finaliza com uma posição realista, mas que não descarta a possibilidade de mudanças. O nascimento do cidadão planetário é um evento singular e que está ainda engatinhando.

Desde já devemos não procurar aceitar os velhos paradigmas, mas procurar vivenciar um novo: "a Terra é uma única comunidade." Se não ponderarmos nossas ações elas mesmas poderão nos extinguir.

A leitura de Moacir Gadotti desperta nossas certezas, levanta posições, questiona as transformações que envolvem toda relação com a Terra em que vivemos.

É importante, pois com o estudo apresentado temos um auxílio que possibilita a reflexão sobre nossas atitudes e paradigmas.

Apesar de ás vezes usar conceitos um pouco complexos a leitura deste artigo deveria ser obrigatória a todo ser humano, explicado a cada criança, revelando a nossa condição atual de existência e possível sobrevivência. Ao estudante de administração é indispensável, uma vez que a ação deste profissional tem grande impacto sobre a sociedade.

O autor é demasiadamente sólido e coerente e consegue ser original e repetitivo, não no sentido de ser cansativo, mas no sentido de compreender e entender várias vezes a fim de se chegar a uma nova concepção da razão de nossa existência.

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